23 abril 2011

Raio X dos deuses: Odin, rei dos deuses


Filho de Bor e Bestla, marido de Frigga e pai de vários deuses, entre eles Thor e Balder. Considerado o rei dos deuses, Odin tem um perfil que inspirava seus seguidores, sempre astucioso e com uma insaciável curiosidade pelas coisas, vivia viajando pelos mundos, muitas vezes com Loki e Thor. Sua fisionomia era de um homem vivido e feito em batalhas, com cabelos e barba branca, enxergava apenas por um olho e brandia a lança Gungnir. Cavalgava com seu cavalo de oito patas, Sleipnir, o mais veloz de todos os 9 mundos.

O deus, da raça dos Aesiris, se mostrou um deus sábio e líder, castigando e bonificando quando necessário e por vezes demonstrando saídas de problemas que nem mesmo o astucioso Loki conceberia. Tinha seus casos com Freya, a deusa do amor e sentia por ela o ciúme típico dos amantes.

O rei dos deuses alimentava-se apenas de Hidromel e vivia por caminhar entre os humanos para colocá-los em provas de honra e respeitabilidade, sempre prezando muito a boa hospitalidade, ele mesmo para seguir seus desígnios, já se mostrara hospitaleiro mesmo com gigantes, seus principais inimigos.

Sentado em seu trono, que leva o (impronunciável) nome de Hliðskjálf, Odin podia observar tudo o que acontecia nos 9 mundos, no trono dois corvos, Hugin e Munin (pensamento e memória), contavam o que haviam visto durante seu tempo de vôo (já que Odin poderia ver tudo, mas não era onipresente). O trono era colocado na morada dos deuses, Asgard, onde a única entrada era a Bifrost, a ponte do Arco-Íris.

Odin terá seu fim nas garras de Fenris, o lobo gigantesco, filho de Loki, na batalha de Ragnarok.


Fontes:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Odin

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_n%C3%B3rdica

As melhores histórias da mitologia nórdica

A. S. Franchini / Carmen Seganfredo


22 abril 2011

A batalha de Ragnarok

Dando sequência para as histórias, posto a final, a última história do livro que tenho lido (e amado):


Aquele inverno tinha sido o mais gelado de quantos os deuses podiam ter lembrança. Para começar, não fora um só, mas três invernos encadeados. A neve caíra sem cessar dia e noite, com flocos imensos, congelando rios e mares. Mas, quando a terceira estação de frio consecutivo se anunciou, os deuses em Asgard começaram verdadeiramente a se preocupar.
- Já vamos para o terceiro inverno, Odin...! - disse-lhe Frigga, sua esposa, toda recoberta por peles. - Isto não é normal! - Sua voz traía um terror inconfesso, embora sua alma ainda relutasse em admitir que aquele pudesse ser o primeiro e temido prenuncio de Ragnarok, o Crepúsculo dos Deuses.
- É um inverno excepcionalmente frio, apenas isto; coloque mais roupas e trate de sossegar - disse o velho deus, com o cenho carregado.
Odin na verdade passara a vida toda se preparando para este pavoroso dia; não por acaso mandara construir o majestoso Valhalla, o palácio onde abrigava o exército de seus melhores combatentes mortos trazidos dos campos de batalha pelas valquírias, suas filhas guerreiras. Mas, nem por isto, a palavra fatal fora pronunciada, lá ou em Asgard, uma única vez, a não ser por alusões ou eufemismos, pois todos sabiam que aquela guerra seria a ruína não só dos deuses, como do mundo todo.
O terceiro inverno prosseguiu cada vez mais frio e apavorante. Mas isto mio era tudo: rumores de uma guerra iminente surgiam a todo instante, ou então, do guerras que já estavam em pleno andamento. Guerras de homens contra gigantes, de anões contra elfos, de homens contra homens, de todos contra todos. Nunca os anões haviam trabalhado tanto como nos últimos tempos: avisados de algo, ou simplesmente premidos pelas circunstâncias, suas forjas há muito tempo não se apagavam, produzindo, noite e dia, milhares de espadas, lanças e escudos de Iodos os tipos e feitios. Rios de ouro desaguavam às portas de suas cavernas em pagamento pelos artefatos, pois todas as raças sabiam que, muito em breve, pilhas de ouro não teriam valor algum diante de uma boa espada ou de um escudo razoavelmente sólido.
O Galo de Ouro cantou, como fazia todos os dias no topo do portão de Asgard. Sua saudação ao sol, entretanto, soou inútil, pois naquele dia o sol não nasceu. Corriam rumores horríveis pelo mundo acerca dos filhos de Fenris, o lobo gigantesco. Diziam estas vozes apavoradas que um deles, finalmente, conseguira engolir o sol, enquanto que o outro, a lua.
- Já não há mais sol nem lua pelos céus, Odin supremo! - disse um mensageiro, após atravessar Bifrost, a ponte do arco-íris que levava a Asgard. - É o começo do fim!
Uma escuridão espectral espalhara-se pelo mundo e, agora, a noite era a soberana do universo. Odin aproximou-se da janela e tentou escutar os rumores que chegavam do mundo lá embaixo. Algo como o ruído surdo e contínuo de um terremoto rolava da escuridão até chegar aos portões de Asgard como um rosnar ameaçador. O deus, tomando de sua lança Gungnir, correu até o seu trono mágico, de onde podia observar tudo quanto se passava nos nove mundos.
Nada podia ser mais aterrador: em todos eles, reinava a mais negra escuridão e somente se podia enxergar algo graças aos clarões das tochas e dos incêndios que lavravam por toda parte, Incêndios provocados por vulcões - que irrompiam do chão, violentamente, e sem aviso, engolindo populações inteiras - e das guerras de pilhagem promovidas por vândalos e seus exércitos arregimentados unicamente pelo caos.
- Então, finalmente, chegou o dia... - disse Odin, abaixando a cabeça como quem espera a iminente realização de uma funesta profecia. - Thor, mande reunir todos os deuses capazes de empunhar uma lança e os avise de que todos devemos rumar para o Valhalla - disse o velho deus, recuperando aos poucos a altivez. -Chegou a hora de unir nossos exércitos e nos preparar para a última batalha.
***
Os tremores de terra não haviam somente destruído casas e matado populações inteiras. Haviam também conseguido deslocar as pedras de duas cavernas onde estavam presos, há muito tempo, dois personagens que o destino escolhera para protagonizar o começo da ruína dos deuses.
Numa destas cavernas estava Loki, o perverso filho dos gigantes, preso às rochas, desde há muito tempo, por sólidas correntes. Entretanto, durante a noite, o prisioneiro barbudo vira cessar o seu tormento, o qual consistia em ter uma serpente a gotejar, permanentemente, sua baba pestilenta sobre o seu rosto. Por que ela teria cessado, espontaneamente, de o atormentar?, perguntara-se Loki a noite inteira. Teriam os deuses o perdoado? Cessara, afinal, a mágoa no peito de Odin pela morte de seu adorado filho Balder?
Estrondos sacudiram tudo a noite inteira até que um tremor mais forte deslocou as duas pedras que mantinham presas as suas correntes.
- Oh, será verdade? - disse ele, pondo-se em pé depois de muitos e muitos anos. - Estou livre, finalmente, livre...!
Loki gritou e sapateou como uma criança até que uma idéia iluminou a sua mente: - Se estou livre, isto só pode significar uma coisa... - disse ele, custando a crer que o seu dia chegara. - Soou a hora do grande confronto com os deuses!
De repente, porém, suas palavras foram cortadas por um terrível uivo: era Fenris, seu filho lobo, quem também se via livre de suas correias. Um exército de gigantes conseguira localizá-lo e libertá-lo das indestrutíveis cadeias forjadas pelos anões. O velho lobo ainda podia sentir na boca o gosto da mão de um deles, Tyr, o deus audaz, que ousara arriscá-la para garantir o sucesso da trapaça de seus companheiros.
- Vamos, Fenris! - bradou um dos gigantes, carregando uma pesada clava. - Chegou a hora de ajustar as contas com o velho deus!
O lobo, também sem poder acreditar, despedira, então, o seu pavoroso uivo, que prenunciava a sua vingança, o qual Loki escutara da sua caverna.
Lançando longe as suas cadeias, Loki tratou de rumar, logo, para a região sombria de Musspel, onde sabia que um poderoso exército de gigantes mortos o aguardava. Ele, Loki, teria a honra de ser o timoneiro do navio que conduziria o exército espectral para o confronto, enquanto Surt, o deus do fogo, guiaria também, com sua espada chamejante, os seus exércitos rumo a Asgard. Ao mesmo tempo, a terrível Iormungand, a Serpente do Mundo, provocava maremotos colossais ao lazer a sua marcha em direção a terrível batalha final.
Antes do fim do dia, estavam todos reunidos, prontos para galgar o último obstáculo que os separava dos deuses entrincheirados: a ponte Bifrost, guardada por Heimdall, inimigo figadal de Loki.
- Todos a Asgard! Morte aos Aesires! - bradava Loki, feito agora comandante supremos das forças destrutivas.
Os exércitos maciços começaram, então, a subir a ponte, num arremesso que escureceu e fez abalar inteiro o arco-íris, enquanto que, pela segunda vez naquele dia, o Galo de Ouro fazia ouvir a sua estridente voz.
***
Alertado pelo canto do galo, Heimdall, o guardião da ponte, acorreu logo à toda pressa para a trombeta gigante, instalada ao lado do portão de Asgard. Apesar de ter esperado por isto a vida inteira, Heimdall sentiu-se francamente surpreso com a reação que isto despertara nele: era um misto de terror, aflição e, ao mesmo tempo, de euforia. Sim, de euforia, pois, agora, a angústia - aquele sentimento daninho que roía seu coração dia após dia - finalmente, acabara: chegara, afinal, a hora do confronto: de resolver, de uma vez, a pendenga que, durante milênios, opusera os deuses a seus inimigos mortais.
As forças de Odin - os melhores guerreiros que o universo já pudera produzir - estavam prontas para o combate. Montado em seu cavalo Sleipnir, Odin, cercado por Thor e Freyr, aguardava apenas o momento certo para dar a ordem de ataque, quando escutou o ruído da trombeta. Durante alguns instantes, só se ouviu o soar, majestosamente aterrador, daquele instrumento poderoso, até que a fúria e a gana de combater começou a inflamar o peito dos guerreiros. Todos sabiam que iriam perecer, mas a eles bastava a consciência de saber que o fariam com coragem e altivez e que seus inimigos também iriam misturar o seu sangue ao dos heróis. Se tudo se resumia a uma grande batalha - a maior de quantas já houvera - e, se eles iriam ter a honra suprema de ser protagonistas dela, então estava tudo muito bem.
- Odin, as forças inimigas já sobem por Bifrost...! - exclamou Heimdall, montado em seu cavalo branco e de lança enristada.
- Aguardaremos que rompam o portão; então, atacaremos sem nenhum medo ou piedade - disse o líder dos deuses sem demonstrar qualquer vestígio de receio.
Entretanto, quando os gigantes e as outras criaturas sinistras estavam quase para chegar aos portões de Asgard, escutou-se o ruído pavoroso de algo que ruía. 'Iodas as cabeças voltaram-se para a direção do ruído estrepitoso, mas somente Heimdall pôde observar um espetáculo digno dos deuses: a ponte Bifrost ruíra, lançando para baixo todos os exércitos numa confusão de braços e pernas humanos misturados a patas de cavalos e de outros seres repulsivos.
Um estrépito de vivas! sacudiu as colunas de Asgard. Inflamados por aquele breve triunfo inicial, todos comemoravam, menos Odin, que parecia mergulhado num supremo devaneio: - Thor, não sei se, para você, a sensação é a mesma - disse ele, cochichando ao ouvido do filho as suas últimas palavras -, mas estou me sentindo leve, agora... muito leve! - Um sorriso, quase de êxtase, brilhava por baixo de suas barbas esbranquiçadas.
- Sim, meu pai, sinto o mesmo - disse Thor, empunhando com ainda mais força Miollnir, o seu inseparável martelo. - Parece que vai começar, agora, a melhor de todas as brincadeiras!
- Sim... a melhor de todas as brincadeiras...! - repetiu Odin e, antes que pudesse retomar o fôlego, despediu um grande grito: - Adiante, guerreiros de Odin! Pela honra dos Aesires, empunhemos as espadas!
Os portões de Asgard foram abertos pela última vez. Numa gigantesca cavalgada, os exércitos divinos desceram pelo que restava da ponte do arco-íris indo, diretamente, de encontro às forças inimigas que já estavam reorganizadas nos campos de Vigrid, local, agora, do último e apocalíptico combate.
***
Os exércitos engalfinharam-se num choque de espantosa brutalidade, que tirou, imediatamente, a vida de milhares de combatentes. As espadas e as lanças começaram a retinir, enquanto verdadeiros rios de sangue escorriam pelos pés dos guerreiros. Os inimigos declarados procuravam-se por entre as hordas anônimas e parecia que cada qual sabia, exatamente, o papel que deveria executar, pois, um a um, os inimigos pessoais foram se encontrando para seus ajustes e desforras pessoais.
Freyr, o deus que viera a Asgard como um intruso e acabara caindo nas graças de Odin, foi o primeiro a se defrontar com seu inimigo, o gigante Surt.
Segurando sua espada flamejante, o gigante avançara impávido na direção do deus. Nenhum disse qualquer palavra, mas Freyr soube, desde o primeiro instante, que marchava para a morte. Sem portar a sua espada mágica - que tivera a desventura de entregar há muito tempo a seu descuidado servo Skirnir -, Freyr ergueu a sua lança e tentou aparar o golpe da terrível arma de seu oponente. Mas, foi tudo em vão: a lança partiu-se e o deus caiu morto sob o golpe certeiro do gigante em chamas.
Um pouco mais adiante, Tyr, o deus maneta, após ter matado centenas de inimigos, perecia nos dentes de Garm, o cão de guarda infernal, parecendo ser sua sina ser sempre alvo dos dentes de algum animal de poderosas mandíbulas. Mas, antes de morrer, enterrara no coração da fera o aço escaldante de sua espada, vingando, assim, a morte do mais valente dos deuses.
Loki e Heimdall, que tantas disputas travaram anteriormente, estão agora frente a frente. Seus dentes estão cerrados, mas, curiosamente, parecem sorrir ao mesmo tempo. Em seguida, os dois atiram-se um ao outro com suas espadas afiadas, mas são logo engolfados por uma multidão de combatentes que atiram às cegas as suas cutiladas. Quando a multidão se desfaz - em sua maioria caída e morta ao chão - vê-se que Loki e Heimdall estão ambos caídos também lado a lado. Nenhum registro se fez da maneira como ambos deram um fim à vida do outro e à rivalidade que sempre os uniu.
Quanto Thor, teve, finalmente, a oportunidade de travar seu duelo com a Serpente do Mundo, duelo tão esperado que todos os combatentes que estavam por perto abaixaram as suas armas apenas para observá-lo. Era, afinal, um espetáculo único, que pouquíssimas criaturas poderiam ter o privilégio de assistir - e, quem sabe, um dia, contar em algum outro lugar, caso houvesse ainda um lugar para se ir depois daquele fim de mundo. Thor arremessou-se com seu martelo ao pescoço da serpente e, após abraçar-se a ela, desferiu com toda a força a sua arma sobre o crânio da fera que desfaleceu, em seguida com os miolos botados para fora.
- Thor, você venceu, afinal! - exclamou Odin, que vira tudo de longe.
Mas, infelizmente, à sua vitória seguiu-se, logo, a sua própria morte, pois após dar quatro passos para trás, Thor caíra morto ao chão, bafejado que fora pelo veneno da serpente. Sua mão, no entanto, não desgrudou do martelo Miollnir e nenhum outro combatente teve força bastante para fazê-lo abandonar, mesmo depois de morto, a sua querida arma, que diziam ter amado mais do que à sua própria esposa, a adorável Sif dos cabelos dourados.
Odin, então, cego de ódio, procurou por entre a multidão o seu inimigo, que não poderia ser outro, senão o grande lobo Fenris. - Aqui estou, fera assassina! - bradou o deus, ao avistar o lobo, procurando já a própria morte.
Esporeando seu cavalo de oito patas, Odin empunhou pela última vez sua lança Gungnir e se lançou ao encontro do terrível inimigo. O lobo, entretanto, com uma única bocada, engoliu o maior dos deuses. Um silêncio mortal caiu sobre o campo ensangüentado de Vigrid.
- Meu pai, não! - exclamou Vidar, um dos filhos do velho deus, desmontando de seu cavalo e indo em direção ao vitorioso lobo. Um sorriso parecia arreganhar ainda mais os dentes manchados de sangue de Fenris. Mas, desta vez, ele encontraria seu próprio fim, pois Vidar, enlouquecido pela fúria, ousou entrar dentro da própria boca do lobo para matá-lo e o fez da seguinte maneira: firmando bem os pés sobre a língua do animal, antes que este pudesse entender o que o agressor fazia, empurrou o maxilar superior do lobo para cima até rasgar o animal em dois. Este fato encheu de assombro deuses e gigantes, que viram no filho um legítimo sucessor do pai.
Mas a guerra ainda continuou por muito tempo, mesmo depois de mortos os seus protagonistas, até que Surt, vendo que tudo estava consumado, empunhou um imenso facho, que parecia um novo sol e saiu pelo mundo a colocar fogo em tudo.
O pânico estabeleceu-se nos dois exércitos, quando perceberam que, agora, não havia mais inimigo algum a combater, senão, a própria morte e que o melhor a fazer era tratar de salvar a vida.
Mas agora, definitivamente, já era tarde para pensar em salvação: o mar secara inteiramente; a terra abrasara-se num incêndio arrasador; e o próprio céu derreteu, caindo sobre a terra como uma imensa cortina em chamas.
***
O grande cataclismo terminara com a queda de Yggdrasil, a grande Árvore da Vida. Após ter sido roída, dia após dia, pelos dentes afiados da serpente Nidhogg, ela não pudera suportar a grande catástrofe e ruíra, liquidando com todos os nove mundos e com quase todos os seus habitantes. Diz a lenda que, entre os homens, apenas um casal pôde sobreviver: ele se chamava Lif e ela Lifthrasir, e foi justamente graças à portentosa árvore, que puderam fazê-lo, pois esconderam-se dentro de sua espessa casca, como no ventre da natureza e da própria Vida.
Também alguns poucos deuses conseguiram escapar ao flagelo destrutivo -entre eles, Vidar, o filho que vingara a morte de Odin; e Magni, um dos filhos de Thor. Também Balder, o mais puro dos deuses, ressuscitara, junto com Hoder, o desastrado irmão cego que o matara, inadvertidamente, por uma astúcia de Loki.
E assim, Lif e Lifthrasir repovoarão o mundo, enquanto que, segundo os versos da Edda imortal,
Os Aesir vão se encontrar novamente no Idavoll
e relembrarão a poderosa Serpente do Mundo,
lembrando também os decretos maravilhosos
e os mistérios do antigo e poderoso deus.

20 abril 2011

Pensar ou não pensar? Buscar ou não buscar?

Certo dia decidi que mudaria minhas atitudes, buscando finalmente o verdadeiro “eu” e o conhecimento purificado dos dogmas.
Sou um tipo que por vezes prefere a ausência de pessoas, mas por algumas ocasiões necessito da iminente presença de alguém que me agrade, dessa vez estava nesse momento, então fui procurar alguém que se interessasse pela mesma busca interior.

Procurei o primeiro e obtive a seguinte resposta: - Tenho todo o conhecimento do mundo na minha igreja e na Bíblia, Deus me ilumina e me alimenta com o necessário.

Nesse dia decidi que não argumentaria, cheguei ao ideal que não devo tentar forçar que as pessoas aceitem que seu ideal é errado, mesmo por que nunca estarei livre de achar que o meu é o certo, estando no fundo errado.

Continuando a caminhar, achei outro conhecido e ao lhe convidar tive a atravessada retrucada: - Eu preciso me sustentar, não tenho tempo para essas tolices, devo manter o meu emprego e crescer financeiramente para descansar na velhice.

Outro: Poxa! Que legal! Eu até iria, mas eu tenho muito medo de dar tudo errado e falhar, então prefiro não tentar e continuar seguindo a vida de sempre.

E outro: Até iria, mas não vou ganhar nenhum dinheiro com isso.

Mais outro: Vamos! Conhecer várias mulheres, beber e ter muitas histórias doidas para contar para os netos. (Esse eu fiz questão de retirar o convite)

Enfim, ao final do dia, nem havia saído da cidade... Pensei se era possível que não houvesse qualquer indivíduo que compartilhasse mesmo que uma pequena fração dos mesmos desejos.
Será que trabalho, família, sociedade e religião são tão importantes a ponto de abandonarmos nossos sonhos? Não pensarei nisso hoje, talvez, para melhor me adaptar, não pensarei.

14 abril 2011

Por que não vou a igreja?

Aprecio muito o ato de praticar a religião, pois como sou um grande entusiasta dos metodismos (apesar de dificilmente seguir algum) e vejo como algo legal haver simbologias que denotem determinados dias, como Quarta-Feira ser o dia de louvor a Deus e assim Quarta ficar marcada figurativamente por isso, reforçando assim que ela “é realmente a Quarta-Feira”.

Mas a Igreja, a Religião faz com que as pessoas percam sua vontade de explorar o mundo, aliás, “mundo” se torna sinônimo de algo ruim, desprezível e que o crente deve manter-se afastado de toda forma possível. Quando para mim, mundo é tudo o que vemos, ouvimos e sentimos e como tal deve ser explorado e conhecido em toda sua profundeza.

Vejo as religiões como correntes que prendem a pessoa ao chão, não deixam que abram suas asas pois temem que o que elas olhem de cima possa afastá-las do domínio religioso e o pior é que, com o tempo, o seguidor vai achando isso normal e acrescenta essa filosofia ao seu sistema pensativo. Triste, realmente triste. Então para disfarçar criam-se pesquisas e até dias específicos para estudos, mas estudos sobre o que? Sobre a própria religião. =/

Então começa o processo de bitolamento e falo isso por observação pessoal de pessoas próximas a mim, que, com dor no coração, vi sendo tragadas para dentro de uma morfina intelectual sem que eu nada pudesse fazer. Aliás, cheguei ao ponto de baixar a guarda e freqüentar as casas religiosas, porém eu sinto que não nasci para isso, jamais deixaria que o medo imposto pelos senhores da religião me impedisse de descobrir coisas, não está na minha essência.

Também acho difícil crer em certas partes do livro sagrado que INFELIZMENTE foi estuprado diversas vezes pela Igreja Católica nos séculos passados. Há muitas filosofias interessantíssimas de vivência, sentimentos bons e pertinência que posso retirar da Bíblia, mas há muito lixo acrescentado para engabelarem bobos e do mesmo jeito que tiro coisas boas da Bíblia posso tirar do Corão.

A Igreja é (talvez até sendo injusto fazer tal comparação) um câncer que só tende a aumentar, pois você começa indo Domingo, de repente Quarta-Feira, depois na Sexta, Sábado, Segunda. E onde a sua vida fica nisso? Trabalho-igreja-descanso. Quantos livros você lê nisso? Livros? Pra que livros? Você tem a Bíblia, o “supremo” livro.

Eu dedicaria um dia da minha semana para Igreja, e seria o dia de leitura da Bíblia, pois tem história também, se bem feita, principalmente pelo exemplo de pessoa e religioso o Presbítero Gerivaldo, um dos homens mais inteligentes na Bíblia e em muitas outras áreas, um raríssimo sedento de conhecimento que merece todo o meu respeito e admiração. Aprendi muito com ele e o tomei como exemplo de um VERDADEIRO cristão.

E o que acontecia com ele na igreja no tempo que eu ia? Ele era perseguido pelos demais cristãos, por que suas pregações tinham pesadas críticas aos cristãos hipócritas, que iam para igreja dar o seu showzinho pessoal com cantorias, que não aceitavam ouvir a verdade e o resultado de seus atos errados, o Inferno.
Com o tempo o silenciaram, cortaram quase toda sua palavra no púlpito. Isso me enfureceu de forma a desejar a morte daquela igreja cínica e causou meu afastamento definitivo. Além do mais acho incrivelmente irritante que os cristãos não me deixem em paz quando frequento a igreja; querem sempre mais do meu sangue, que eu vá quase todos os dias e passe horas por dia lá, e isso eu jamais faria.

Enfim, se um dia houver uma verdadeira igreja formada apenas por “Gerivaldos”, nesse dia estarei cantando e louvando, por enquanto eu louvo o Senhor buscando o conhecimento do mundo, esse mundo natural maravilhoso que ele criou, célula por célula e o mundo dos humanos, essas sociedades incrivelmente complexas ao qual meu instinto é tirar cada laço de dúvida.

Mitologia Nórdica - Thor em Jotunheim

Esse texto foi retirado da obra: As melhores histórias da mitologia nórdica
A. S. Franchini / Carmen Seganfredo

Ao qual deixo créditos de ser uma obra bastante interessante e que proporciona uma leitura excelente para os que gostem de mitologias. Ainda estou no início do livro, mas pretendo compilar as histórias aqui no blog. Segue uma das mais conhecidas histórias da mitologia Nórdica, aproveitem:



O deus Thor, filho de Odin, estava viajando rumo a Jotunheim, a terra dos Gigantes, junto com Loki e seu criado Thialfi, quando chegaram todos a uma grande floresta.
- Alto! - disse ele, erguendo o braço. - Vamos parar aqui e procurar um lugar protegido para passar a noite.
Cada qual seguiu para um lado até que Thor exclamou:
- Acho que encontrei um bom lugar!
Thor estava diante da entrada de uma imensa caverna; portando um archote, ele adentrou-a junto com os demais.
- É um lugar amplo e bem seco! - disse o servo Thialfi.
- Será que não é a toca de algum animal? - perguntou Loki.
- Vamos ver! - disse Thor, avançando mais para o interior.
Após investigar com cautela o local, perceberam que estava desabitado.
- Vejam! - exclamou Loki. - Há várias câmaras por aqui!
De fato, a caverna bifurcava-se em cinco câmaras amplas e separadas do tamanho de grandes salões.
- Vamos passar a noite nesta - disse o deus do trovão, acomodando-se junto com Loki e Thialfi na mais ampla das câmaras.
Os viajantes dormiram um bom pedaço da noite, quando, subitamente, foram despertados por um tremendo baque seguido de um ruído assustador, que lembrava o grito de mil ursos.
- O que foi isto? - exclamou Loki, pondo-se em pé.
Thor e Thialfi ficaram alertas, mas ao ruído seguiu-se um profundo silêncio. Então, todos voltaram a dormir e, como o ruído assustador não voltasse a acontecer, estiveram em paz o restante da noite.
Na manhã seguinte, saíram todos da caverna.
- Que ruído pavoroso terá sido aquele? - indagou Thialfi, que ainda estava intrigado com o incidente da noite.
- Esqueça - disse Thor -, florestas escuras como estas são pródigas em ruídos misteriosos.
Mas, o deus estava enganado, pois, logo adiante, deram de cara com um monstruoso gigante que, estirado na relva, ainda dormia profundamente.
- E esta agora? - disse Thialfi, amedrontado.
- Vamos embora, antes que ele acorde! - sussurrou Loki, dando as costas do gigante. Infelizmente, a orelha dele era tão grande, que captou o sussurro dos três e, logo, seus gigantescos olhos abriram, cobertos por remelas do tamanho de batatas fritas.
- Quem são vocês e o que fazem aqui? - gritou a criatura prodigiosa, erguendo-se com uma rapidez espantosa para alguém do seu tamanho e se pondo i procurar algo com grande avidez.
- Sou o poderoso Thor e venho com meus companheiros de Asgard no rumo de Jotunheim - disse o deus, empunhando por cautela o seu martelo Miollnir.
Mas o gigante continuava a andar de lá pra cá, sem dar muita atenção aos forasteiros até que, de repente, deu um grande grito:
- Ah, achei!...
Era a sua luva, que Thor e os demais haviam tomado por uma caverna. E a câmara, que todos haviam achado confortável e espaçosa, não era mais do que o polegar da luva!
- Sou Skrymir e vou indo também para Jotunheim - disse ele, enquanto ajeitava a luva. - Por que não vamos todos juntos?
Loki deu uma olhadela para Thor, mas este fez um sugestivo sinal com o martelo para que aceitassem o convite do gigante.
Após uma rápida refeição, seguiram em frente, tentando a muito custo acompanhar as enormes passadas do gigante, que andava adiante deles, balançando nas costas sua ruidosa mochila de provisões. Ao ver, entretanto, que os asgardianos também levavam algum mantimento, declarou com a mais cândida das vozes:
- Hum... vejo que vocês também têm o seu farnel! Partilhemos, então, como bons companheiros de viagem, as nossas provisões...!
Skrymir tomou as mochilas dos três e as introduziu dentro da sua e, com isto, estava feita a partilha.Assim, viajaram durante todo o dia com o gigante regalando-se de hora em hora, ao mesmo tempo em que os outros penavam sede e fome contínuas, até que o dia escureceu novamente e todos acomodaram-se sob uma grande árvore para descansar e passar a noite. O gigante, entretanto, antes de começar a roncar disse aos outros para que se servissem, livremente, dos mantimentos que havia em abundância na sua mochila, acrescentando cinicamente: "dormir de estômago vazio provoca pesadelos".
Não houve uma transição muito grande entre suas palavras e seu sono, pois antes que sua boca se fechasse novamente, fez-se ouvir por toda a floresta o som de seu poderoso ronco. Enquanto isso, Thor, tão faminto quanto os seus companheiros, tentava abrir a maldita mochila. Infelizmente, ela estava tão bem amarrada, que foi impossível desatar-lhe um único nó. Depois de lutar por um longo tempo com os nós cegos, Thor acabou por perder de vez a paciência e exclamou, irado:
- Definitivamente, este gigante sujo está debochando de nós!
O deus agarrou o seu martelo e avançou para o gigante, que permanecia adormecido, e desfechou um furioso golpe em sua testa. Um estrondo cavo ressoou por toda a floresta, como se um pavoroso trovão tivesse eclodido.
- O que houve? - disse Skrymir, abrindo um de seus olhos. - Oh, esta árvore deve estar cheia de ninhos de pássaros, pois acaba de cair uma pena de um filhotinho sobre a minha testa. - Depois, voltando-se para Thor e seus companheiros, perguntou: - Como é, já fizeram a refeição...? - Mas, antes que o deus pudesse responder - e certamente reclamar - Skrymir já havia adormecido outra vez.
Thor, inconformado com a desastrada tentativa, empunhou novamente o seu martelo e chegando ao pé do gigante desferiu-lhe novo golpe, agora, sobre o topo do crânio. Skrymir acordou e levando a mão à cabeça, resmungou:
- Diacho! Agora foi uma noz que caiu! - Em seguida, virou de lado e voltou a dormir, como se nada houvesse acontecido.
Loki e Thialfi observavam as infrutíferas tentativas de Thor sem nada dizer, temerosos de que a ira do deus acabasse por se voltar contra eles. Thor resolveu esperar que o dia começasse a amanhecer para tentar um último e definitivo golpe. "De manhã estarei descansado e, então, darei cabo deste miserável!", pensou, acomodando-se para dormir.
Tão logo o sol raiou, ele se pôs em pé, mais disposto, embora ainda esfomeado e percebendo que o gigante ainda dormia profundamente, tomou de seu martelo e aplicou-lhe um golpe tão violento, que o instrumento se enterrou até o cabo dentro da cabeça do desgraçado, que acordou com um grande bocejo.
- Ou estou muito enganado - disse ele, alisando os cabelos - ou algum passarinho largou uma titica sobre a minha cabeça! - Pondo-se em pé, Skrymir conclamou os demais para que também acordassem.
- Vamos, preguiçosos...! - disse ele, estendendo os braços e derrubando dezenas de árvores à direita e à esquerda. - O sol está alto e Jotunheim já está perto!
Já haviam começado a andar, quando Skrymir resolveu advertir-lhes:
- Preparem-se, pois lá encontrarão gigantes de verdade!
- Quê? - exclamou Thialfi, incrédulo. - São ainda maiores do que você?
- Maiores...? Você deve estar brincando! - disse o gigante, dando uma sonora gargalhada. - Meu nanico, logo vocês verão que eu não passo de um anão perto deles!
Andaram mais um pouco, até que chegaram a uma grande encruzilhada.
- Muito bem, aqui nos separamos - disse Skrymir abruptamente.
Os três entreolharam-se, surpresos, não sem uma ligeira e indisfarçada manifestação de alívio.
- Mas você não vai para Jotunheim? - perguntou Loki.
- Não, vou para o norte, mas vocês devem seguir a estrada que vai para leste. Dou-lhes, entretanto, o conselho para que evitem se mostrar arrogantes quando chegarem à terra dos gigantes, pois os habitantes do lugar, e em especial Utgardloki, não admitem que forasteiro algum demonstre presunção diante deles - ainda mais, umas formiguinhas feito vocês.
Antes que Thor pudesse responder, o gigante já estava tomando o seu rumo.
- Adeus, amigos! Foi um prazer viajar ao seu lado! - disse Skrymir, lançando para as costas a sua recheada mochila. Com duas ou três passadas, desapareceu pela floresta, deixando Thor e os outros a caminho do país dos gigantes.
***
Os três companheiros já haviam caminhado bastante desde a separação, quando avistaram uma cidade no fim de uma extensa e elevada planície.
- Vejam, lá está um grande palácio! - disse Loki, apontando para a construção, que mesmo de longe já era imensa.
Aquele era o castelo de Utgardloki, um dos reis de Jotunheim, o qual, embora o nome, não tinha parentesco algum com o acompanhante de Thor.
Na verdade, era um palácio tão alto que ao tentar avistar a mais alta de suas torres quase caíram todos de costas. Quando baixaram os olhos, novamente, deram-se conta de que os imensos portões estavam fechados.
- E agora, poderoso Thor? - disse o servo Thialfi, cocando a cabeça.
- Vamos tentar abri-los à força - disse o deus do trovão, apoiando as duas mãos na porta maciça, enquanto retesava os músculos das pernas para tentar entrar no palácio. Loki e o criado uniram-se aos esforços do deus, mas foi tudo em vão: as portas não moveram-se um único milímetro.
- Ufa!... - exclamou Loki, enxugando o suor da testa. - Por que não tentamos bater a aldrava?
De fato, havia uma gigantesca aldrava de bronze colocada no meio do portão, mas estava fora do alcance de qualquer um deles. Então, Thor, depois de estudar melhor a porta, descobriu que havia uma pequena fenda entre as duas pesadas folhas. Para os gigantes era uma fenda tão desprezível que seus olhos não podiam nem percebê-la, mas, para os visitantes, era uma passagem perfeitamente possível de ser atravessada - desde, é claro, que não se importassem em se espremer um pouquinho.
- Vamos entrar neste palácio nem que seja a última coisa que eu faça! - exclamou Thor, que possuía em grau admirável a virtude da persistência.
Thor se espremeu, então, até conseguir ultrapassar a estreitíssima fenda, sendo seguido imediatamente pelos dois companheiros.
- Ótimo! - exclamou Loki. - Já estamos dentro!
- Chhh! - fez Thor. - Temos de pegá-los de surpresa, senão nos expulsarão daqui antes mesmo que estejamos em seu salão. Ou esqueceu que deuses e gigantes são inimigos implacáveis?
Os três foram avançando, assim, pé ante pé, enquanto vozes retumbantes ecoavam pelos corredores. Por diversas vezes cruzaram com sentinelas postados à margem dos vastíssimos corredores, mas eles eram tão imensos em comparação com os intrusos, que, a menos que tivessem olhos nas canelas, jamais teriam sido capazes de percebê-los.
- É ali o salão dos gigantes! - disse Thor aos demais.
Tomando a dianteira, o deus escalou um pequeno banquinho e se fez anunciar dali com sua portentosa voz, que, no entanto, diante do vozerio assumiu as proporções diminutas do zumbido de um mosquitinho.
Loki, sempre apreciador do ridículo, seja humano ou divino, fazia um grande esforço para controlar o seu riso, enquanto que o criado Thialfi fingia ter perdido algo pelo chão. Tomando, então, Miollnir, o seu poderoso martelo, Thor começou a malhar o banco onde estava até fazê-lo em pedaços.
- Atenção, todos! Sou Thor e vim aqui para desafiá-los!
Algumas cabeçorras, atraídas pelo ruído do martelo, voltaram-se para a direção de onde provinha aquele minúsculo, mas agora nítido ruído. Ao avistar Thor, entretanto, puseram-se a rir, deliciados, apontando para os visitantes dedos enormes como toras de carvalho desprovidas de ramos.
- Oh, então, você é Thor, o famoso deus do trovão? - exclamou uma voz, postada na ponta da grande mesa onde estavam assentados os gigantes. Ela pertencia a Utgardloki, o maioral do lugar.
- Sim, é Thor, o matador de gigantes, quem está à sua frente! - esbravejou o deus num assomo verdadeiramente admirável de audácia.
- Oh, longe de nós querermos pôr à prova a veracidade de suas palavras - disse o líder dos gigantes, descobrindo os dentes num ar de evidente deboche, embora, interiormente, tivesse dúvidas se não seria mais prudente evitar um confronto com o famoso deus (vai que era mesmo verdade o que diziam de sua força...!).
- Muito bem, forasteiros, aproximem-se - disse Utgardloki, fingindo-se bom anfitrião. - Há sempre lugar à minha mesa para mais três bocas!
"Ainda mais deste tamanhinho!", disse ele à boca pequena (por assim dizer) aos seus vizinhos de mesa, que imediatamente caíram na gargalhada.
- Mas, para que desfrutem de minha generosa hospitalidade - continuou a dizer Utgardloki em tom grandiloqüente -, terão os três de nos brindar com algum prodígio de força ou habilidade!
Loki, que não estava para muitas conversas, e sentia dentro do estômago um buraco do tamanho daquelas criaturas, adiantou-se e disse:
- Quanto a mim, o único prodígio do qual me sinto capaz, neste instante, é o de comer mais do que qualquer um de vocês!
- Muito bem, está aceito o desafio! - disse um deles, erguendo-se no mesmo instante. Era Logi, um dos gigantes mais fortes - e seguramente mais esfomeado - de todo o bando. - Vamos começar o desafio imediatamente!
Loki sentou-se em frente ao gigantesco Logi e, logo, travessas imensas de carne foram postas diante dos dois. Para Loki, a carne foi servida sob a forma de pernis, enquanto, para o gigante, foram servidos bois inteiros.
Dado o sinal, os dois competidores arreganharam os dentes e lançaram-se às suas porções com terrível voracidade. Loki fez jus à sua fama de voraz comilão, tendo esvaziado a sua travessa no mesmo espaço de tempo que o adversário. Só que este, como a perfeita personificação da Fome, não só devorara a sua porção como também os ossos e a travessa, o que lhe valeu a vitória.
- Muito bem, agora é a sua vez, nanico! - disse Utgardloki a Thialfi, que aguardava em suspense a sua vez de provar o seu valor.
- Bem, se eu tenho alguma virtude, senhor gigante - foi dizendo o criado de Thor - é a de ser o mais veloz dos mortais. Por isto, desafio qualquer um dos presentes a me vencer numa corrida.
Hugi, o mais veloz dos gigantes ali presentes, bradou da outra ponta da mesa:
- Vamos, saiam da frente, que esta é comigo!
Thialfi voltou o rosto, rapidamente, em direção ao distante local de onde a voz soara, mas antes que seu eco tivesse terminado, ele já estava diante dele.
- Então, nanico, está pronto? - disse Hugi, com um sorriso superior.
O rei ergueu-se e foram todos para uma pista que havia no lado de fora do castelo. Os dois, Thialfi e Hugi, foram colocados lado a lado, até que Utgardloki concluiu, a seu modo, a contagem regressiva:
- Dez! nove! oito! sete! quatro! seis!... Dez! nove! oito! cinco! dois!... Dez! nove! sete! seis! meia dúzia!... Ora, inferno, partam de uma vez!
Os pés de ambos começaram a correr com tal agilidade, que ficou muito difícil observá-los. Mas, com um esforço maior podia-se divisar as pernas de Thialfi, as quais alternavam-se com tamanha rapidez que pareciam imóveis.
De repente, entretanto, percebeu-se num pasmo, que Hugi já estava voltando!
De fato, o gigante fora tão rápido, que chegara ao fim da pista e retornava agora, cruzando por Thialfi, com uma grande risada. E, antes que o pobre Thialfi conseguisse completar o trajeto, o gigante voltou e venceu-o pela segunda vez.
Com Thialfi derrotado, chegara a vez de Thor enfrentar o desafio. Como estivesse muito sedento, propôs aos gigantes uma disputa de bebida.
- Tragam-me o maior chifre que houver, repleto de hidromel e beberei tudo de um único gole! - disse o deus, confiante em seu fôlego prodigioso. Utgardloki trouxe um chifre verdadeiramente imenso - tão imenso, que não se podia enxergar a sua extremidade - e o colocou diante de Thor.
- Pronto, aqui está, falastrão! - disse ele. - Se for mesmo forte, beberá seu conteúdo de um só trago. Se não for tão resistente assim, precisará de dois grandes tragos. Agora, se for um maricas, então, terá de dar três longos goles. Mas, não creio que tal aconteça, pois nunca ninguém tão fraco assim se apresentou por aqui! - acrescentou o gigante, empinando logo o chifre.
Thor encheu os pulmões de ar e colou a boca ao bocal, puxando todo o conteúdo do gigantesco chifre. Suas bochechas ficaram infladas e lustrosas, mas tão logo engoliu aquele grande trago, percebeu que ainda havia muito para ser engolido. Na verdade, a marca que indicava a quantidade existente dentro do recipiente mal se movera. Derrotado na primeira tentativa, Thor tomou novo fôlego e puxou nova e assustadora quantidade para dentro da boca, que quase estourou de tanto líquido. Mas, foi em vão: a marca permanecia praticamente inalterada. Os gigantes entreolhavam-se com risos e caretas.
- Não quer tentar uma última vez? - disse Utgardloki ao pé do ouvido de Thor.
Enchendo os pulmões de ar, o deus sorveu um último e prodigioso gole, a ponto de o hidromel escorrer-lhe pelas barbas numa verdadeira cachoeira.
- Desisto! - disse Thor, sabendo que nem em mil goles conseguiria beber todo o conteúdo.
- Que pena! - exclamou Utgardloki, falsamente condoído. - Pensei que o poderoso deus fosse um pouquinho mais resistente! Mas, como você é uma divindade muito respeitada, vou dar-lhe uma nova chance em um novo desafio! - disse Utgardloki, fazendo sinal para que trouxessem o seu grande gato cinzento.
- Temos aqui uma nova competição da qual participam somente as crianças: consiste apenas em levantar do chão meu gato de estimação. É lógico que eu não teria me atrevido a propor tal brincadeira ao grande Thor seja não tivesse comprovado a sua lamentável fraqueza!
O magnífico gato, apesar de também ser gigantesco, não parecia, de fato, representar um desafio acima das forças de Thor. Por isso, o deus acolheu o desafio com um sorriso de alívio.
Thor aproximou-se do bichano, dizendo: "Aqui, Mimi, aqui!" O gato aproximou-se de mansinho com suas patas branquinhas da cor da neve e ronronou suavemente. Então, o deus envolveu o gato em seus poderosos braços e começou a suspendê-lo - ou a imaginar que o suspendia, pois na verdade o gato apenas esticara um pouco as suas pernas para dar a impressão de que cedia aos esforços do deus.
- Está difícil, deus do trovão? - disse o gigante, escarnecendo.
Todos os demais riam fungado, fazendo coro com o rei, inclusive, o gato, que parecia ter na boca ornada por elegantes bigodes um sorriso sutil de ironia.
Por mais que Thor forcejasse, nada conseguiu, além de fazer o gato erguer uma de suas patas brancas, o que pareceu, por fim, mais uma condescendência do bichano do que qualquer mérito seu.
- É fracote mesmo! - disse um dos gigantes, dobrando-se de tanto riso.
Utgardloki balançava a cabeça numa fingida desolação.
Thor, entretanto, tornara-se a tal ponto irado por causa de tantas humilhações, que resolveu lançar um último desafio aos atrevidos gigantes.
- Está bem, sou pequeno - disse o deus, espumando de raiva -, mas quero ver qual de vocês está disposto a lutar comigo!
- Meu amigo - disse Utgardloki, olhando para os homens sentados nos bancos -, aqui os fortes só brigam com os fortes. No entanto, conheço alguém a quem talvez você possa fazer frente. Chamem Elli, a minha velha ama - disse o rei a um lacaio.
Dali a instantes entrou no salão uma velha de cabelos ralos e brancos, que endereçou a Utgardloki um sorriso deserto de dentes.
- Velha Elli, aí está um desaforado que diz poder derrotá-la! - disse o gigante à velhota, que, no mesmo instante, começou a arregaçar as saias, preparando-se para o embate. - Mostre a ele quem é o mais forte por aqui!
O deus e a velha postaram-se no centro do salão e a um sinal do gigante a luta começou. Thor arremessou-se à adversária com certa cautela, pois não pretendia maltratar aquela velha centenária. Mas, ela não era nada daquilo que aparentava, e dando um pulo para o lado, que fez inveja ao próprio gato, esquivou-se do ataque e veio postar-se às costas de Thor. Em seguida, aplicou uma valente chave em um dos braços do adversário com tal força, que Thor viu-se obrigado a se ajoelhar e a reconhecer a derrota.
Com isto, encerraram-se as disputas. Thor e seus humilhados companheiros receberam um leito cada qual para descansar antes de partir na manhã seguinte. Tão logo os primeiros raios do sol surgiram no horizonte, já estavam os três prontos para ir embora daquela terra infamante. Utgardloki mandou que lhes servissem uma mesa repleta de iguarias e bebidas. Depois, acompanhou-os até a porta da cidade, e, antes que partissem, perguntou:
- E, então, Thor, gostou da viagem e da hospitalidade?
- Se lhe agrada saber, direi que nunca fui tão humilhado em toda a minha vida! - disse o deus, cabisbaixo, louco para ganhar a estrada.
- Bem, agora já pode se acalmar - disse Utgardloki, tão logo haviam transposto os portões do palácio. - Agora, que você está fora da cidade posso lhe contar o que, verdadeiramente, ocorreu.
Os três entreolharam-se, sem nada entender.
- Palavra de honra, se soubesse que possuía uma força tão descomunal e companheiros tão extraordinariamente competentes jamais teria permitido que aqui entrassem. Na verdade, iludi-os o tempo todo com minhas artimanhas. Primeiro, na floresta, onde amarrei a mochila com arame para que não pudesse desamarrá-la.
- Você? - exclamou Loki.
- Sim, Skrymir era eu mesmo! - disse Utgardloki com um grande riso. - Aquelas três pancadas que me desferiu com seu martelo, seguramente, teriam-me esfacelado o crânio, caso me tivessem realmente atingido! Mas, fui hábil o bastante para enganá-lo no momento certo, entrando para debaixo da terra, de modo que suas pancadas atingiram enormes montanhas, produzindo aquelas fendas profundas, que podem ver lá adiante.
Os três asgardianos olharam naquela direção e viram três grandes abismos que o martelo de Thor abrira naquelas encostas.
- Da mesma forma, foram enganados nas outras disputas - continuou a dizer o gigante. - O adversário de Loki na disputa da comilança não foi outro, senão o próprio Fogo, que devora tudo quanto encontra pelo caminho. Já aquele contra quem Thialfi disputou a corrida era o Pensamento, sendo impossível a qualquer um correr na mesma velocidade que ele.
Loki e Thialfi pareceram aliviados ao descobrir que não haviam sido humilhados, afinal.
- Quanto a você, poderoso Thor, jamais poderia ter esvaziado aquele imenso chifre, pois ele estava ligado na outra ponta ao inesgotável oceano; mesmo assim, se olhar bem na direção do mar, verá que ele está com a maré bem baixa, o que prova a quantidade prodigiosa de água que engoliu! Quanto ao gato, cumpre dizer que operou um feito não menos invejável, pois aquele bichano era na verdade a serpente Midgard, a vasta serpente que contorna toda a terra com suas longas espirais. Ficamos verdadeiramente espantados quando vimos que havia conseguido erguê-la um pouco acima do chão. Mas, de todas as derrotas, com certeza, a menos infamante foi a que lhe pareceu a mais vergonhosa: pois aquela velhota contra a qual lutou era a própria Velhice e jamais alguém pôde vencê-la em tempo algum.
Ao escutar o fim do discurso de Utgardloki, Thor mostrou-se tão furioso - pois, afinal, havia feito papel de bobo diante de toda aquela corte - que ergueu seu martelo Miollnir, pronto a aplicar um castigo de verdade ao gigante. Este, porém, percebendo o perigo, desapareceu instantaneamente.
Sem se dar por vencido, Thor retornou ao castelo para destruir tudo, mas quando lá chegou, uma última decepção o aguardava: o castelo havia desaparecido, como num passe de mágica!

12 abril 2011

Idealizações de uma sociedade doente

Durante essas semanas de notícias minimamente diferentes ao nosso cotidiano, vejo que há uma dose cavalar de insanidade nas atitudes das pessoas que buscam desorientadas respostas para o acontecimento principal, o atentado terrorista na escola de Realengo.
Porém nessa busca insana e sem sentido noto com pesar que o homem desorientado consegue ser pior que em seu juízo “perfeito”.

Que coisas eu vi que puderam denotar essa parafernália de sentimentos? Selecionei três pontos principais para mostrar o meu ponto de vista, segue-se:

1 – A criação de um herói;

Com o Cristianismo surgiu a dualidade, o mundo deixa de ser amplo para se dividir em dois, bem e mal, naturalmente nascem então o herói e o vilão, não existem mais seres humanos dotados de inteligência e poder de decisão, nem pessoas com problemas psico-mentais; apenas heróis e vilões.

Com o surgimento do “vilão” Wellinton houve a necessidade imediata do surgimento do herói... Claro! A visão dualista não permite que haja um ser humano com sentimentos e problemas que acabem resultando numa atitude insana em ataque gratuito a sociedade, permite apenas o malfeitor (melquior na versão Chaves), ao qual nasce com esse objetivo e já maquina planos desde o útero.

Mas voltemos ao herói, quem poderia ser? Há uma indefinição mortal, então surgem duas vertentes, as que nomeiam o policial que atingiu o atirador e aos garotos que fugiram e chamaram o policial. Ora vemos uma vertente, ora vemos outra, mas me parece que a do policial está se tornando predominante, afinal é “o homem que NASCEU para nos proteger e daria sua vida por nós”.

2 – Caça aos demais malfeitores que auxiliaram direta ou indiretamente o atirador;

Após alguns dias, já se saía a notícia da prisão dos homens que venderam as armas para o atirador. “Crápulas, canalhas! Foram eles que deram a foice mortal que ceparia a vida das pobres crianças.”
Há então uma pergunta que surge em minha mente: E o quico? (mais certamente “e o quique”).

O que eles tem a ver com isso além de venderem armas como provavelmente sempre fazem, para qualquer indivíduo? Eles sabiam do que ia acontecer? Não. Eles venderiam mesmo assim se soubessem? Não sei.

O que me diverte nisso é que diariamente dezenas de armas são vendidas para dezenas de pessoas por dezenas de vendedores, pegar os dois coitados que acabaram por vender para o atirador vai mudar algo? Essa eu deixo para você responder.

3 – Ataques violentos aos familiares do atirador;

Isso foi o que mais me deixou envergonhado. O muro da pobre e desafortunada família do Wellinton pichado com dizeres: “assassino”. Como se ele morasse lá (Se não me engano nem lá ele vivia mais). Como se ainda estivesse vivo para sofrer esses ataques impensados.
E a família, que já sofre com a própria situação e por se sentirem culpados (sem ajuda de ninguém) pelo acontecimento e por não terem visto antes e procurado evitar, ainda têm que lidar com animais que, sem sentido algum, depredam e hostilizam os pobres coitados que nada devem senão uma penitência particular, exclusivamente pessoal, ao qual cada um tem o direito de escolher para si.

Dói ver que o ser humano só consegue reagir á violência cometendo ainda mais violência; numa sociedade onde a classe média é incrivelmente violenta e vingativa, buscando “soluções” que por vezes ultrapassam o próprio ato do infrator.

Encerrando.


Senhoras e senhores, a mídia escolhe o que você odiará e amará na próxima temporada, assim que esse assunto tiver esgotado procurarão outra coisa para sugar, para fazê-los odiar, e assim vão vivendo, amando o que mandam, odiando o que impõem... Pobre sociedade.